A melhor fase, de novo

Antes mesmo de ser mãe, eu tinha uma fase preferida na infância: os 4 anos. É daí que vêm as minhas primeiras recordações, com o meu irmão gêmeo, na varanda e com o nascimento do meu irmão mais novo. Além disso, é o momento em que as crianças estão com a língua mais solta e a cabeça lá no alto, morando entre as nuvens. Sempre adorei conversar e brincar com pequenos dessa idade, acho o maior barato.

Ok, Ana Elis está com 3 anos, mas olha: que fase boa! Tem dias que ela não está muito pra papo e não quer dar explicação mas, em outros dias, está super tagarela! Conta da escola, dos amigos e, o que eu acho mais bacana, lembra de coisas que fizemos juntas há 1 semana, 1 mês ou 1 ano. Para ela, a noção de tempo é quase um espiral. O que vivemos há muito tempo pode estar ali, vívido, diante dela – assim como o que aconteceu há 5 minutos pode não representar nada em seus relatos.

Pequenininha, mas sempre com algo a dizer

Algumas pérolas da Ana Elis:

Na rua

– Olha, mamãe, cocô de cachorro!
– Nossa, é mesmo, filha. Eca.
– A Luna faz cocô e xixi na caixa cheia de terra.
– É mesmo, filha, mas cachorro não faz isso, só gatinho. Cachorro faz cocô na rua mesmo, mas aí tem que limpar, né?
(Silêncio)
– Mas mããããe, ele NÃO TEM MÃO!

No dia do aniversário de 3 anos:

[Na noite anterior, com ela já dormindo, enchi a sala de bolas e coloquei o presente dela, cercado de brinquedos, em cima do sofá.]
Ela acordou, viu a sala, ficou feliz da vida. Cantamos parabéns todos juntos. Ela sentou no sofá e foi abrir o presente, emocionada:
– O Papai Noel deixou um presente aqui pra mim!!
OI?!?!
– Papai Noel nada, filha, foi a mamãe, ontem de noite.
Ela me ignora e fala baixinho:
– O Papai Noel passou aqui…deixou meu presente…! (suspiro)
Surdez seletiva aos 3 anos. Imagina a adolescência dessa menina, tô ferrada.

Ao sair de casa:

– Nossa, mamãe, você está muito cheirosa!
– Obrigada, filha, você também é muito cheirosa.
– Não, mamãe, eu sou LINDA.

Bingo da discussão sobre racismo:

a) “Mas eu tenho um amigo negro”
b) “Ah, agora tudo é racismo?!”
c) “Mas a escravidão já foi há muito tempo!”
d) “É que muitos negros são racistas”
e) “As pessoas estão muito sensíveis”
f) “Agora estou proibida de usar turbante?!”

Quem ouvir 3 dessas frases em uma discussão sobre racismo grita BINGOOOO!

Os porquês do armário cápsula

Quem me segue lá no instagram (@soshopaholic) deve ter notado (espero!) que montei e estou seguindo um armário cápsula, postando diariamente os meus looks para trabalhar. Mas aí vem a pergunta: que raios de armário é esse? Por que a Fernanda inventou de fazer isso? Como faço pra fazer igual?

 
Não temam, amiguinhos! Estou aqui para esclarecer essas – e outras – dúvidas. Vem comigo!
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O que é um armário cápsula?
De forma bem simplificada, é uma seleção peças (o número varia geralmente entre 30 e 40, mas você pode dosar do seu jeito) para ser combinada entre si em looks diários. Não entram nessa conta: roupa de ginástica, íntima, roupas de festa e pijamas. A ideia é que, nesse ambiente com menos opções, a gente exercite nossa criatividade ao combinar as peças. Na ideia original, as roupas devem ser usadas por 3 meses, ou seja, uma estação. Mas acredito que tudo pode ser customizado de acordo com as vontades e estilo de vida de cada um.
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Como é o seu armário cápsula?
São 34 peças, incluindo sapatos, para looks de segunda a sexta. Na minha conta, além das exclusões do modelo de armário cápsula tradicional, também tirei os fins de semana. Como é a minha primeira vez, decidi usar as peças por pouco mais de um mês, até o carnaval (final de fevereiro).
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Como você escolheu essas peças?
É aí que começa o desafio, principalmente se considerarmos que sou uma pessoa de estampas e cores. Quase não tenho peças básicas, por isso as combinações ficam mais difíceis. Escolhi 8 partes de baixo (calças e saias) que combinassem com pelo menos 3 partes de cima. Rascunhei essas escolhas em um papel (tem quem prefira fotografar peça por peça) para não me perder.
Não me ligo muito em roupa, devo fazer um armário cápsula?
Talvez você já use um sem perceber, na medida em que alterna sempre as mesmas roupas, sabe? O AC, pra mim, é uma forma de exercitar a criatividade e reduzir o consumismo – mas eu me ligo muito em moda, então tudo fica mais divertido, sabe?
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O que esse projeto tem a ver com consumismo?
Na minha opinião, não vale fazer AC se não for para gerar uma reflexão. Em pouco tempo você chega à conclusão que dá pra ser feliz com menos, bem menos. E, no meu caso, ainda percebo que há peças que preciso muito, mas dificilmente compro (blusas básicas, por exemplo). Essa pode ser uma oportunidade e tanto de se conhecer por meio do próprio guarda roupa.
Você estipula metas? Dá para agregar outras ideias ao armário cápsula?
Sim! Eu decidi que ficaria até abril (3 meses) sem comprar roupas. Além disso, separei 4 sacos grandes para doação, vendi algumas roupas na minha lojinha do enjoei e abri espaço no meu armário. O AC está sendo uma chance de rever meu estilo!
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Ai, gostei, como começo?
Uma ideia legal para começar é um 10×10, uma espécie de mini armário: são 10 peças, por 10 dias, em um total de 10 looks. Considere seu estilo de vida, dress code do local de trabalho, possíveis mudanças climáticas do período e opções para o fim de semana. Nessa conta, entram sapatos e bolsas, tá?
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Onde buscar inspirações de looks?
A Gabi, do Teoria Criativa, foi a precursora do AC por aqui, vale dar uma olhada nos arquivos do blog dela (que não tem mais esse foco). No mais, amo os looks da Ana, do Hoje Vou Assim Off, que tem um estilo mais parecido com o meu. É dela uma série de posts sobre combinações de cores que pode ser uma mão na roda na hora de separar a roupa pro dia seguinte.
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Dá para usar a ideia do Armário Cápsula em outras áreas da vida?
Sim! A Marie Kondo, por exemplo, defende que os livros que não serão relidos devem ser doados, por exemplo. Tem um post muito bom da Mama Watters sobre doar metade dos brinquedos dos filhos (e depois esconder metade do que sobrou!) e ter apenas uma pequena coleção à disposição. Outro dia eu fiz uma limpa no meu Facebook e deixei só uma coleção cápsula de amigos, haha. Realmente o conceito de se ter apenas o que precisa (olha que revolucionário) pode ser aplicado em toda a nossa vida.

Maternagem real e de instagram

Existe esse movimento incrível de se falar de maternidade real, da casa zoada de brinquedos, da criança que passou dois dias sem tomar banho e do cansaço que nos abate no fim do dia. Todo esse esforço faz a gente se sentir mais humana. Mas e se, assim como na moda, a gente precisasse também de um campo aspiracional, algo que ficasse entre a imagem encantada de maternagem que tínhamos e a desconstruída? Algo que pudesse nos inspirar e, ao mesmo tempo, ser real (nem que seja para uma outra pessoa)? É nesse buraco que entram os instagrams de mães gringas.


Frio aumenta o glamour, anota aí

Para mim, esses perfis funcionam de maneira muito parecida com os blogs de moda. Na época em que eles surgiram, mostravam meninas como eu (que não eram modelos) usando looks bacanas. A fórmula era simples: gente como a gente usando coisas que jamais usaríamos. A pegadinha era justamente essa, as blogueiras eram muito parecidas conosco, exceto pelo fato de ganharem muito mais dinheiro e presentes que nós. Então a gente ia até a Renner tentar montar um look parecido com um zero a menos.

É desse jeito que funcionam os perfis de mães no insta. Eu vejo alguém parecido comigo (uma mãe), mas que, ao menos nas fotos, parece ter tudo o que eu não tenho sob controle: uma casa muito branca, roupas minimalistas e comidas feitas em casa (geralmente pão, não sei por que esse povo tá sempre fazendo pão). Elas têm sempre flores frescas sobre a pia, vegetais frescos nas refeições e admiram as pequenas coisas da vida.

Eu olho, curto, babo pela fofura das crianças mas sei que, de verdade, minhas fotos nunca serão tão claras e eu provavelmente jamais vou acertar fazer um pão caseiro. Mesmo assim, esses perfis me inspiram. São mulheres que tem uma média de 15 filhos – sim, porque ter 3, 4 ou 15 é a mesma coisa pra mim – que provavelmente não trabalham ou têm trabalhos flexíveis ou vivem do blog e que têm aquelas casas muito brancas com peças vintage.

Uma placa proibindo a entrada de hippies vinda dos anos 60. Um suporte para vassouras encontrado em um mercado de pulgas. Uma tina de bronze herdada da avó. Panelas de ágata e mason jars. Uma bandeirinha de tecido dizendo “It’s OK”. Minha casa é cheia de tupperwares sem tampa e fotos em molduras baratinhas. Abafa.

 

Eu gosto de acompanhar a vida desse povo porque, assim como uma saia mídi que vejo na vitrine, acho que ela me cairia bem. Eu poderia ter uma casa simples com quintal e uma cozinha grande com mesa de tampo de madeira. Eu poderia assar meus próprios pães. Eu poderia encontrar algo que preste em um brechó. Poderia. Talvez. Um dia. Quando eu vejo aquelas fotos tão iluminadas, enxergo beleza nas pequenas coisas. Me inspiro a fazer algo semelhante com a Ana Elis. Vejo que a maternidade me tirou algumas coisas e pôs outras no lugar. Outras coisas que podem ser interessantes também.

Com suas casas espaçosas e iluminadas, muitos filhos e looks minimalistas, essas mães me mostram um estilo de vida que, ao menos, parece possível. Ter uma horta. Tomar chá. Bordar. Fazer um piquenique ao pôr do sol. Ter menos móveis. Usar mais roupas que combinam entre si. São coisas que eu posso fazer. Ou poderia. Talvez. Um dia.

 

P.S.: Sim, ainda vou indicar o perfil de várias dessas mães gringas do instagram! Me aguardem.

Ponto de referência

Desde a adolescência eu queria ser uma pessoa tatuada. Veja bem, não era “fazer uma tatuagem”, mas “ali, do lado da menina tatuada”. Na época, meu pai, muito acertadamente, não deixou. Dizia que poderia atrapalhar uma entrevista de emprego, por exemplo. Isso foi bom, me fez pensar no desenho por cinco anos antes de fazer a primeira, aos 23: uma mandala desenhada pelo meu irmão gêmeo, o Lucas, no alto das costas.

Passaram alguns anos até que eu fizesse a segunda, um coração na costela. Foi quando eu e João fomos morar juntos. Depois vieram um coração em cima do cotovelo esquerdo e um ramo de flores acima do direito, já no fim do ano passado. No mesmo dia, fiz também um dente de leão na lateral do pulso esquerdo.

Apesar de tantos desenhos no corpo, eu não me considerava uma pessoa “tatuada” TATUAAADA, até pq mal os vejo no dia a dia.

Então esse fim de semana fiz um novo ramo de flores, dessa vez no antebraço. E planejo outras tatuagens, também grandes, também em lugares visíveis.

Na madrugada passada acordei num surto: estaria eu me tornando a pessoa que sempre sonhei? Seria eu essa pessoa? Será que estou só me disfarçando dessa pessoa?

Olha que loucura: aos 31 anos eu posso ser quem eu quiser.

O Segredo do Armário Cápsula

Para todo mundo que pensa em começar um #armariocapsula e não sabe como, eu tenho uma dica: separe as suas peças preferidas. Sabe aquelas que, não importa o destino, o corpo ou o estado de espírito, são garantias de conforto e alegria? Aquelas que você não lembra bem se foram caras ou baratas, mas que certamente já se pagaram de tanto que você usa? Que você cata no cesto de roupa suja desesperada? Sem perceber, essas roupas tão queridas já formam um armário cápsula do coração. São usadas sem esforço e sem muita regra. Tá aí a minha blusa de cactos que não me deixa mentir! Amo que me faz me sentir moderna – é meio quadrada, meio cropped – sem me engordar (cobre a barriga perfeitamente) e casa com colarzão ou colarzinho. Um resumo? É vida, é mara. Se tivesse meia dúzia de blusas tão boas, não precisaria de outras 30 mais ou menos – e eis o milagre da fé, digo, do #capsulewardrobe em si.

Gatinha, todo mundo tem um ponto fraco

Toda mãe tem um ponto fraco. Uma coisa que, se o filho fizer, ferrou: o tempo fecha. É choro e ranger de dentes para os dois lados. O meu é a comida. Ana Elis é boa de garfo, vejam bem. Adora tomate, abóbora, pepino e brócolis, mas não deixa de ser uma criança. E cara, quanto maior o meu esforço para fazer algo diferente, rico em nutrientes, orgânico, vegano, no vapor, etc, etc, MENOS ela come. Putz. Se eu levar a minha filha no PF acho ela come mais do que qualquer coisa que eu faça em casa. O negócio da pequena é arroz, feijão, farofa, hahhahaha. E quanto menos ela come o que eu demorei horas para fazer (cadê Jamie Oliver para dizer que dá pra fazer uma refeição riquíssima em 30 minutos? Chama esse gringo que eu vou dar na cara dele), mais estressada eu fico. Me dá vontade de chorar, dar meia dúzia de gritos, até já expulsei da mesa. Se cuspir então, perco até o apetite. Me dá vontade de bater. 😖😖😖

Mas gente, respira. É uma criança. Será que a filha da Bela Gil come tudo aquilo que ela faz? Até o churrasco de melancia? Tem certas coisas que não dá pra exigir de uma criança, e nessas horas eu preciso ter calma. Sorte ter o João do lado.
Sabem qual é a grande questão? É que um filho revela muita coisa sobre a gente. Eu descobri que, nessas horas, o que acontece é que eu me sinto burra. Me sinto incapaz de agradar. Então na verdade o problema não é dela, mas meu. E olha, isso tem a ver com um monte de coisas, inclusive meu medo de não ser amada. Eu que preciso lidar com a minha própria frustração e saber que, na refeição seguinte, ela pode curtir. Mãe que é mãe não desiste fácil, gente! 👊🏾👊🏾👊🏾
😉
Qual é o ponto fraco na maternagem de vocês?
#anaelis3

O bichinho da crítica feminina

Talvez vocês não lembrem do Hanson, banda de meninos loiros de cabelos compridos dos anos 90. O fato é que tô aí curtindo os caras até hoje, seguindo nas redes sociais, etc, e vendo o povo se proliferar em 250 filhos cada.  Daí que o Taylor me posta essa foto de natal, uma das coisas mais adoráveis que eu vi no instagram nesse período de festas:

Como não poderia deixar de ser, dei uma olhada nos comentários. E lá estava ela, ácida e cruel, a crítica feminina. Aquela que nunca pode se calar diante de uma outra mulher.
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“Filhos lindos, mas essa mulher parece mãe dele”
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Na hora fiquei pensando na primeira leva de aniversários de 1 aninho que compareci. Lembro que a impressão que tive foi exatamente essa: filhos lindos, pais garotos, mães levemente destruídas. O cansaço no olhar, os quilos a mais, as varizes que a gravidez deixou de recordação. As moças, geralmente jovens, no auge da vida que seria celebrar o aniversário do filho, cheias de saúde, e eu só conseguia pensar que a maternidade pode ser muito cruel com as mulheres. Os pais pareciam até mais jovens, de bermuda, catando a criança com uma mão e equilibrando a latinha na outra, mas as mães não passaram pelo meu crivo. Fiquei um pouco triste imaginando o que alguém acharia de mim se me visse ali.
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Dois anos de águas já correram e eu hoje enxergo as coisas de outra forma. Na foto, consigo enxergar uma mãe de 5 (cinco!) filhos, com pouco mais de 30 anos, de batom, cabelo arrumado, a família bonita, naquele tipo de foto em que as crianças não correm nem fazem careta. Putz, que vitória.  Essa aí venceu por hoje. Palmas pra ela. Porque para uma mulher, não basta vencer dentro de casa: a gente precisa parecer jovem até para um desconhecido curtir no instagram! Precisa estar com o filho arrumado e a bunda durinha. Precisa passar pelo selo de aprovação dado não pelo próprio espelho, mas por uma outra mulher, mesmo sendo uma mocinha infeliz que vive do outro lado do mundo.
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É por isso que, pra 2017, eu tô tentando guardar o o bichinho da crítica feminina no bolso.

Fala, fala, fala. Escreve, escreve, escreve.

Eu nunca me imaginei sendo outra coisa que não jornalista. Olho para mim e não vejo nenhum outro talento que não envolva falar, escrever, trocar. Por isso, mesmo depois de 2 anos me dedicando exclusivamente à maternidade, eu queria voltar para o mercado. Sentia falta, acima de tudo, de gente. E quando surgiu a chance de voltar, eu não pensei duas vezes, agarrei a oportunidade e me joguei.

Corta a cena para experiências anteriores. Eu já trabalhei em empresa grande, ganhando bem e sendo bem desvalorizada. Já trabalhei em empresa pequena em que um puxava o tapete do outro. Já trabalhei longe de casa, saindo cedinho e voltando depois das 22h sem direito a banco de horas ou dinheiro pro táxi. Já trabalhei de graça. Mas tudo isso mudou depois que eu tive a minha filha.

Sendo jornalista, sei que nunca serei rica. E é com essa certeza que eu vivo. Sendo assim, eu topo ganhar pouco, ganhar médio, se isso garantir momentos bacanas com a minha filha. Então bora ganhar pouco, mas também trabalhar pouco. Trabalhar normal. Trabalhar.

Trabalhar e ter fim de semana. Trabalhar a uma distância de casa que é ok. Trabalhar e poder deixa-la ou busca-la na escola. Trabalhar e poder fazer alguma atividade física de manhã ou à noite. Tudo isso virou prioridade pra mim. Se não fosse assim, eu ficaria em casa mesmo, com meus freelas eventuais.

Então demorou, mas eu consegui. Ana Elis entrou na escola já falando, comendo sozinha, e em pouco tempo já desfraldou. Isso é um privilégio incrível que a gente teve, e eu sei disso. Sei também que ela é só uma criança e que sente a minha falta, mas eu estou tão feliz em voltar a trabalhar que eu acho que ela também sente isso. Ela pergunta: “mamãe, vai trabalhar, você?” e quando eu confirmo, ela diz “Eu também. Na escola”. E assim estamos combinadas.

P.S.: Já expliquei pra ela o que mamãe faz no trabalho, e acho que ela entendeu: “Fala, fala, fala. Escreve, escreve, escreve”. Resumiu 4 anos de faculdade, essa garotinha.

Desmame em 3 atos

Prólogo

Um dos meus maiores medos antes de ter a Ana Elis era não conseguir amamentar. Ouvi histórias terríveis de mamilos em carne viva, dores insuportáveis e cansaço extremo. A frase que ficou na minha cabeça foi dita por uma de minhas tias: “Eu tinha vontade de arrancar o bico do peito e colocar em cima da mesa”. Sim, só coisa light.

Para driblar o terror, li bastante, cheguei a ir em uma palestra sobre amamentação dada por uma fonoaudióloga (lá no Instituto Aurora) e, na hora do vamos ver, foi mais fácil do que eu imaginava: uma vez que o bebê executa a pega corretamente (colocando a boca em toda a auréola, não só no mamilo; sugando sem fazer barulho e com os lábios para fora, como um peixinho), a amamentação não só não dói, como não deve doer. E assim amamentei a cria sem dificuldades.

 

Primeiro Ato: o início do fim

Dizem que o desmame deve começar na mãe, e comigo foi assim mesmo. Chegou uma hora em que eu simplesmente não queria mais amamentar. Me dava uma sensação estranha toda vez que Ana Elis vinha pedir o “tetê”, eu queria correr, me esconder, fugir mesmo. Ninguém me compreendeu nesse momento – nem o meu marido – até porque é um sentimento difícil de explicar, muito íntimo. Cheguei a amamentar chorando.Fui percebendo que aquele poderia ser um sinal natural de que o período de amamentação estaria no fim e que eu deveria ouvir meus instintos e respeitá-los. Decidi então que, depois que ela completasse dois anos eu iria começar o processo de desmame.

Segundo Ato: comunicado

Há algo fantástico no mundo dos bebês: parece que eles se desenvolvem de forma exponencial na época do aniversário. Percebi na Ana Elis uma capacidade de comunicação muito maior do que antes e, principalmente, de entender nossa rotina e as regras da casa. Isso foi fundamental no momento em que expliquei que, a partir de agora, o tetê é só em casa. Não tem mais tetê na rua, tá? Avisei. Antes de sair, perguntava: vamos à pracinha, quer mamar antes de sair? E assim consegui um respiro e variedade no guarda roupa repleto de roupas decotadas e camisas de botão.

Terceiro Ato: Férias

No fim de março, viajamos no fim de semana. Foi o teste que precisava: nós não estávamos em casa, então não tinha tetê. Era esse o argumento e me agarrei à ele. Mas tinha tanta novidade, rio, caminhada, vaca e galinha, que o tempo passou e ela mal pediu. Achei que estava no caminho certo até voltarmos e ela dizer “É casa, tem tetê!, toda feliz. Sucumbi, mas vi que sim, a sensação continuava, aquela angústia…

Em abril, viajamos de novo, dessa vez por mais de uma semana. Nada de peito, nadinha. Só praia, sol, arroz, feijão, banana e todas as coisas que ela adora comer. Acordava pedindo iogurte, batata, farofa. E nesse tempo todo eu reforçando que ela era muito grande, muito forte, não era mais neném. Então, quando voltamos pra casa, Ana Elis ficou assim: uma menina grande de 2 anos e 2 meses que não mama mais.

Sobre tudo: claro que houve momentos em que eu pensei em desistir. Momentos em que ela estava cansada, com fome ou só querendo um carinho, e pedindo peito. Mas, nessas horas, eu me agarrava ao meu sentimento e a minha certeza de que estava fazendo a coisa certa. Dizia: “olha, não tem tetê, mas tem colo da mamãe, carinho e beijinho, tá?”, mesmo à noite, mesmo com choro, mesmo quando amamentar seria a solução mais fácil para o perrengue. Segui meus instintos e sinto que fiz a coisa certa, sem forçar a barra nem pra mim, nem pra ela.