Desmame em 3 atos

Prólogo

Um dos meus maiores medos antes de ter a Ana Elis era não conseguir amamentar. Ouvi histórias terríveis de mamilos em carne viva, dores insuportáveis e cansaço extremo. A frase que ficou na minha cabeça foi dita por uma de minhas tias: “Eu tinha vontade de arrancar o bico do peito e colocar em cima da mesa”. Sim, só coisa light.

Para driblar o terror, li bastante, cheguei a ir em uma palestra sobre amamentação dada por uma fonoaudióloga (lá no Instituto Aurora) e, na hora do vamos ver, foi mais fácil do que eu imaginava: uma vez que o bebê executa a pega corretamente (colocando a boca em toda a auréola, não só no mamilo; sugando sem fazer barulho e com os lábios para fora, como um peixinho), a amamentação não só não dói, como não deve doer. E assim amamentei a cria sem dificuldades.

 

Primeiro Ato: o início do fim

Dizem que o desmame deve começar na mãe, e comigo foi assim mesmo. Chegou uma hora em que eu simplesmente não queria mais amamentar. Me dava uma sensação estranha toda vez que Ana Elis vinha pedir o “tetê”, eu queria correr, me esconder, fugir mesmo. Ninguém me compreendeu nesse momento – nem o meu marido – até porque é um sentimento difícil de explicar, muito íntimo. Cheguei a amamentar chorando.Fui percebendo que aquele poderia ser um sinal natural de que o período de amamentação estaria no fim e que eu deveria ouvir meus instintos e respeitá-los. Decidi então que, depois que ela completasse dois anos eu iria começar o processo de desmame.

Segundo Ato: comunicado

Há algo fantástico no mundo dos bebês: parece que eles se desenvolvem de forma exponencial na época do aniversário. Percebi na Ana Elis uma capacidade de comunicação muito maior do que antes e, principalmente, de entender nossa rotina e as regras da casa. Isso foi fundamental no momento em que expliquei que, a partir de agora, o tetê é só em casa. Não tem mais tetê na rua, tá? Avisei. Antes de sair, perguntava: vamos à pracinha, quer mamar antes de sair? E assim consegui um respiro e variedade no guarda roupa repleto de roupas decotadas e camisas de botão.

Terceiro Ato: Férias

No fim de março, viajamos no fim de semana. Foi o teste que precisava: nós não estávamos em casa, então não tinha tetê. Era esse o argumento e me agarrei à ele. Mas tinha tanta novidade, rio, caminhada, vaca e galinha, que o tempo passou e ela mal pediu. Achei que estava no caminho certo até voltarmos e ela dizer “É casa, tem tetê!, toda feliz. Sucumbi, mas vi que sim, a sensação continuava, aquela angústia…

Em abril, viajamos de novo, dessa vez por mais de uma semana. Nada de peito, nadinha. Só praia, sol, arroz, feijão, banana e todas as coisas que ela adora comer. Acordava pedindo iogurte, batata, farofa. E nesse tempo todo eu reforçando que ela era muito grande, muito forte, não era mais neném. Então, quando voltamos pra casa, Ana Elis ficou assim: uma menina grande de 2 anos e 2 meses que não mama mais.

Sobre tudo: claro que houve momentos em que eu pensei em desistir. Momentos em que ela estava cansada, com fome ou só querendo um carinho, e pedindo peito. Mas, nessas horas, eu me agarrava ao meu sentimento e a minha certeza de que estava fazendo a coisa certa. Dizia: “olha, não tem tetê, mas tem colo da mamãe, carinho e beijinho, tá?”, mesmo à noite, mesmo com choro, mesmo quando amamentar seria a solução mais fácil para o perrengue. Segui meus instintos e sinto que fiz a coisa certa, sem forçar a barra nem pra mim, nem pra ela.

Comments

  1. says

    Olá, tudo bem!
    Nos falamos a um tempo atrás, lembra? …..

    Amei o post,verdadeiro e me deu um ânimo danada,a Malika tem só 6 meses,porém é tão bom ouvir história assim♡

    Parabéns!

  2. Livia says

    interessante demais. nao tenho filhos mas ouvi dizer que o que o bebe quer com o peito é na maioria das vezes aconchego! coisas da natureza..

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